
Entre 1985 e 2025, o Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa em até 500 metros de rios e outros cursos d’água. O número corresponde a 26,9% de toda a vegetação nativa perdida no bioma no período. Os dados divulgados nesta quinta-feira, 8/10, fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas de mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil de 1985 a 2025. Na faixa de até 30 metros dos rios, a área de vegetação nativa reduziu 13,9% no período. Em 2025, pastagem e agricultura ocupam juntas 18,2% dessa faixa. No mesmo ano, 36,5 milhões de hectares de vegetação nativa estão a até 500 m dos rios, o equivalente a 36,7% de toda a vegetação remanescente no Cerrado.
“A vegetação próxima aos rios ajuda a proteger o solo, reduzir a erosão e evitar que sedimentos cheguem aos cursos d’água. A redução dessa cobertura pode aumentar o assoreamento, afetar a qualidade e a disponibilidade da água e deixar a paisagem mais vulnerável a eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas “, explica Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas. “Olhamos para todos os rios e cursos d’água mapeados, independentemente da largura, para entender o que mudou nas suas margens ao longo de mais de quatro décadas. Esse recorte ajuda a identificar onde a vegetação nativa foi reduzida e quais usos passaram a ocupar essas áreas.”
No Cerrado nascem rios de seis grandes bacias hidrográficas do país. Alto Tocantins e Araguaia registram as maiores áreas de vegetação nativa perdidas em até 500 metros da rede de drenagem. No Alto Tocantins, essa vegetação passou de 9,7 milhões para 6,8 milhões de hectares. No Araguaia, foi de 7,8 milhões para 5,1 milhões. No Médio São Francisco, caiu de 4,9 milhões para 3,8 milhões de hectares. Juntas, as bacias do Alto Tocantins e Araguaia responderam por cerca de 5,7 milhões de hectares de redução, ou 41% de toda a redução de vegetação nativa registrada em até 500 metros dos rios no Cerrado.
“Avaliar as mudanças na cobertura e no uso da terra no entorno imediato dos rios, que são áreas prioritárias para a conservação, é essencial para entender a condição das nossas áreas de preservação permanente (APPs) e das matas ciliares, fornecendo subsídios valiosos para orientar políticas de conservação dos recursos hídricos e potencializar a construção de corredores ecológicos em cada bacia”, complementa Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e integrante da equipe do Cerrado no MapBiomas.
No bioma como um todo, o Cerrado, segundo maior bioma do país, com 200,4 milhões de hectares, teve perda líquida de 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa (-34%) entre 1985 e 2025. A formação savânica foi a mais afetada, com 34,0 milhões de hectares a menos (-41%). Em 2025, a vegetação nativa cobre 49,6% do bioma.

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Agropecuária cresceu 110% em 41 anos
A área de agropecuária mais que dobrou, passando de 46,7 milhões para 97,9 milhões de hectares e ocupando quase metade (48,9%) do Cerrado. A agricultura teve aumento de 24,7 milhões de hectares no período e chegou a 29,7 milhões de hectares em 2025. Nesse mesmo ano, o Cerrado concentrou 49,2% da área de soja do Brasil.
A conversão para a agropecuária varia entre as regiões e ao longo do período. Até 2005, predominou a transição de vegetação nativa para pastagem em todo o Cerrado. Entre 2015 e 2025, nos estados do Matopiba predominou a conversão de vegetação nativa para agricultura, enquanto nos demais estados do Cerrado, aumentou a transição de pastagem para agricultura. Nesse período, 81,4% das transições de vegetação nativa para agricultura ocorreram no Matopiba, e 78,0% das transições de pastagem para agricultura ocorreram nos demais estados do Cerrado.
Em 2025, o Matopiba reunia 47,7% da vegetação nativa remanescente do Cerrado. A região respondeu por 37,3% da redução da vegetação nativa entre 1985 e 2025 e por 65,7% dos 10,5 milhões de hectares de redução registrados no bioma entre 2015 e 2025.
301 municípios deixaram de ter predomínio de vegetação nativa
Em 2025, seis dos 13 estados com área no Cerrado mantêm mais da metade de sua porção no bioma coberta por vegetação nativa. O Piauí tem a maior proporção (78,2%) e São Paulo, a menor (14,7%). Nos municípios, a agropecuária passou a predominar em 61% deles, ante 41% em 1985. Ao todo, 301 deixaram de ter predomínio de vegetação nativa. Em 1985, 154 municípios tinham menos de 20% de vegetação nativa em sua porção inserida no Cerrado; em 2025, eram 381, ou 227 a mais. Já o número de municípios com mais de 80% de vegetação nativa caiu de 624 para 225.
Na divisão fundiária, 77,7% da perda de vegetação nativa ocorreu em áreas privadas com registro georreferenciado. As áreas protegidas ou de uso coletivo, que incluem terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação, ocupam 7,5% do Cerrado e reúnem 13,9% de sua vegetação nativa em 2025. Nelas, a perda desde 1985 foi de 500 mil hectares.
Campo alagado, silvicultura e outros usos
A classe de campo alagado e área pantanosa perdeu 1,4 milhão de hectares (-18%). Do que foi convertido, 76,2% viraram pastagem ou agricultura. Em 69,2% dos municípios do Cerrado houve redução dessa classe.
A silvicultura passou de 600 mil hectares para 3,9 milhões de hectares (crescimento de 511%), variação percentual superior à da agricultura (490%) entre 1985 e 2025. A área mais que dobrou desde 2005. No Paraná, a silvicultura ocupa 23,7% da porção do estado inserida no Cerrado, a maior proporção entre os estados do bioma.
A mineração ocupa 61.743 hectares em 2025, 516% a mais do que em 1985. Das transições para mineração, 69,6% partiram de vegetação nativa. Dez municípios reúnem 68% da área minerada do bioma, liderados por Nossa Senhora do Livramento e Poconé, ambos em Mato Grosso.
A área urbanizada chegou a um milhão de hectares (0,6 milhão de hectares a mais que em 1985). Brasília (DF) concentrou 6,8% do aumento da área urbanizada no período. Considerando a principal classe de origem das novas áreas urbanizadas em cada município, a vegetação nativa predominou em 45,3% dos municípios, seguida pela pastagem.
A área de usinas fotovoltaicas soma 14.215 hectares, ou 31,9% da área dessas usinas no Brasil. Em 2025, 5.964 hectares ocupados por elas eram cobertos por vegetação nativa em 2016. O parque eólico ocupa 2.180 hectares, 7,6% do total nacional. Em 2025, 1.224 hectares ocupados por parque eólico eram cobertos por vegetação nativa em 2016.