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Cinco estados concentram quase metade dos fragmentos de vegetação nativa do Brasil

Trecho de Mata Atlântica em Miracatu (SP); bioma tem maior número de fragmentos no Brasil Crédito: Wikimedia Commons

Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná concentram 49% dos 3,41 milhões de fragmentos de vegetação nativa do Brasil em 2024. O número de fragmentos não indica, por si só, a extensão de vegetação nativa de um território. A região Norte apresenta as maiores áreas médias de fragmento do país. No Amazonas, a área média por fragmento é de 4 mil hectares, a maior entre os estados. Em 46% dos municípios brasileiros, a área média dos fragmentos é inferior a 25 hectares, sobretudo nas regiões Sudeste e Sul e no litoral. Os dados são do módulo de Degradação do MapBiomas –, atualizado com a Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil – , e abrangem o período de 1986 a 2024.

Fragmentos são porções de vegetação nativa separadas umas das outras por áreas onde a vegetação foi removida e substituída por usos como pastagem, agricultura e áreas urbanas. A fragmentação é a divisão de áreas contínuas de vegetação em porções menores e menos conectadas entre si.

“Essa redução da conectividade afeta diretamente a capacidade de dispersão e reprodução das espécies nativas que vivem nesses fragmentos, reduzindo o fluxo gênico e aumentando o risco de extinções locais. Quanto mais fragmentada fica a paisagem, menor é a área média de seus fragmentos, e isso é muito ruim em termos ambientais porque aumenta a exposição aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos “, explica Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas.

Em 1986, o país tinha 2,35 milhões de fragmentos de vegetação nativa, com área média de 286 hectares. Em 2024, eram 3,41 milhões, com área média de 163 hectares. No período, o número de fragmentos aumentou 45% e a área média diminuiu 43%.

Entre os 20 municípios com menor área média de fragmentos, 12 estão no Sudeste, 5 no Nordeste e 3 no Sul. São João de Meriti (RJ) tem a menor área média, com 1,9 hectare por fragmento. Entre os 20 municípios com maior área média, 19 estão na região Norte. Itamarati (AM) lidera, com 65,6 mil hectares. A exceção é Barra D’Alcântara, no Piauí, com área média de 26 mil hectares.

A Mata Atlântica e o Cerrado são os biomas com o maior número de fragmentos, com 1,38 milhão e 957 mil fragmentos, respectivamente. As menores áreas médias estão na Mata Atlântica (25 hectares), no Pampa (81 hectares) e no Cerrado (105 hectares). Na Amazônia, o número de fragmentos passou de 144 mil em 1986 para 519 mil em 2024 (+260%). No mesmo período, a área média caiu de 2,7 mil para 662 hectares (−76%).

Em 2024, de 10% a 24% da vegetação nativa estava exposta a pelo menos um vetor de degradação
O módulo de Degradação da plataforma MapBiomas combina diferentes vetores de degradação da vegetação nativa, como número, tamanho, isolamento e morfologia dos fragmentos, área e idade da borda, frequência do fogo e tempo desde o último fogo, idade da vegetação secundária e, na Amazônia Legal, distúrbio de dossel e corte seletivo.

O usuário pode combinar esses vetores para gerar cenários de degradação para regiões de seu interesse. Em 2024, a área de vegetação nativa exposta a pelo menos um dos vetores considerados variava de 53,3 milhões de hectares (10% do total) em um cenário restritivo, a 134,8 milhões de hectares (24%) em um cenário abrangente. O cenário restritivo considera borda de até 30 metros, fragmentos de até 5 hectares, florestas queimadas três vezes ou mais, vegetação secundária de até 5 anos, perfurações e corte seletivo; o abrangente considera borda de até 150 metros, fragmentos de até 50 hectares, florestas queimadas ao menos uma vez, vegetação secundária de até 39 anos, perfurações e corte seletivo. Em 1986, os valores eram de 41 milhões (6%) e 95,5 milhões de hectares (14%), respectivamente.

A Mata Atlântica é o bioma com a maior proporção de vegetação nativa exposta a vetores de degradação em 2024, entre 33% e 70%. Em área absoluta, o Cerrado tem os maiores valores, entre 17,7 e 42,1 milhões de hectares.

A borda e a forma dos fragmentos
Entre 37 milhões e 102 milhões de hectares de vegetação nativa estão em áreas de borda, definidas como faixas de 30 a 150 metros a partir do limite com áreas antropizadas. Nessas faixas, a vegetação está mais exposta a fatores provenientes das áreas vizinhas, como vento, radiação solar, deriva de agrotóxicos e fogo. Essa área representa de 7% a 18% da vegetação nativa do país. O Cerrado tem a maior área absoluta de vegetação em borda (entre 11 milhões e 32 milhões de hectares) e a Mata Atlântica, a maior proporção (de 29% a 66%).

Considerando bordas de até 150 metros (ou seja, toda a vegetação nativa que está a até 150 metros de uma área antropizada vizinha), 69 milhões de hectares (12% da vegetação nativa do país) estão em bordas presentes desde 1986. Ou seja, 67% da área atualmente em borda já estava nessa condição no início da série.

A análise da forma dos fragmentos, chamada de morfologia na plataforma, adota uma faixa de borda padronizada de 30 metros e indica que, em 2024, 91% da vegetação nativa (505 milhões de hectares) estava no interior dos fragmentos, sem classificação como borda ou perfuração. Outros 6,7% (36,9 milhões de hectares) estavam em formas associadas à degradação: bordas (27,3 milhões de hectares) e perfurações (9,6 milhões de hectares). A perfuração ocorre quando uma área antrópica está inteiramente circundada pelo fragmento. Corredores (1,5 milhão de hectares), trampolins (2,2 milhões de hectares) e ramificações (5,7 milhões de hectares) somavam 1,7% (9,4 milhões de hectares).

“Essas informações atualizadas sobre a fragmentação da vegetação nativa no Brasil são estratégicas para entender a dimensão do problema, evitar seu agravamento e inclusive orientar ações de restauração na busca de maior conectividade ecológica, por sinal um dos temas que estão sendo tratados desde o dia 19 de outubro na reunião da COP 17, da Convenção sobre Diversidade Biológica, em Yerevan, capital da Armênia”, comenta Eduardo Vélez, pesquisador da GeoKarten e membro do grupo de Degradação do MapBiomas.